Empty Spaces Chronicles 2.0

Opinião e Sentimentos em pequenas cápsulas, vácuo adentro.

a fina arte de estragar belos clipes (e boas idéias)

Hoje dei uma passada no blog Popload do Lúcio Ribeiro e me deparei com a notícia da divulgação do que seria a “versão do diretor” de um antigo (bom, nem tão antigo assim, é do último álbum da banda) clipe do Oasis, para a música I’m Outta Time, escrita pelo Liam Gallagher.

Fiquei tão abismado com a detonada que deram no que poderia ser um belíssimo clipe oficial que resolvi postar por aqui. A banda dos irmãos Gallagher sempre teve a fama de produzir clipes de gosto duvidoso, mas nessa aqui o cérebro que deu a palavra final na edição da bagaça se superou. Levando em conta que os Gallaghers sempre declararam que não davam a mínima para a produção de seus próprios clipes, eu fico aqui matutando quem seria esse gênio da falta de bom gosto, ali do staff-management, que conseguiu transmutar quase que por completo as boas e interessantes idéias que o diretor quis mostrar (me recuso a acreditar que ele tenha simplesmente se autocensurado). Confiram.

Essa aqui é a bela versão que seria a que saiu num primeiro momento da cabeça do diretor WIZ, e que ficou sem divulgação por sete anos:

Liam I'm Outta Time

E essa outra a versão final que veio a público em 2008, com um Liam canastrão dentro de algo que parece um clipe piorado da Enya, cheio das firulas oníricas que só ela pode fazer com propriedade:

Amigos leitores, em especial os fãs de Oasis, queria saber se só eu vi um assassinato aqui.

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bolacha na vitrola: The Magic Whip (a.k.a. Blur sorvetão)

blur the magic whip 2015

The Magic Whip (Blur, 2015)

Em tempos de áridos desertos no cenário do chamado “rock pop”, a volta da nossa querida banda Blur foi providencial. Juntando com o petardo classudo que o brother Noel Gallagher lançou, temos um ano old-school, mas pelo menos temos algo. A situação estava crítica, nada de novo, e nada de antiguidades de qualidade. Melhorou. Habemus tesão sonoro. E eu fiquei particularmente feliz porque considero o Blur a melhor coisa que surgiu no que poderíamos classificar como “pop com conteúdo” no pós-Beatles.

Havia um vácuo. Até porque nesse nicho dá pra contar nos dedos as bandas que conseguiram acertar. É sempre difícil ouvir algo inspirador naquele meio termo entre o pop standard de Madonna, Britney, Gaga e o rock “cravadão”, fechadinho no seu quadrado. Blur sempre surfou nesse espaço com maestria. E ainda surfa, quase sozinho.

Diferentemente do que acontece na volta de 90% das bandas “medalhões” encostadas à ativa, The Magic Whip é belezura (e acrescenta), encontrando espaço fácil entre os álbuns classudos do grupo no pós-“ceninha britpop 1995-1996″. Eu achei o trabalho com um climão e espírito semelhante ao 13, mas talvez menos pretensioso e experimental, e mais coeso. A cada audição eu gosto mais dele. Vamos lá tentar destrinchar faixa a faixa:

Lonesome Street - minha favorita, uma espécie de Coffee & TV quarentona, uma canção que apresenta o que poderíamos chamar de um resumo condensado do que é a essência do som da banda, aquela junção perfeita da crônica urbana das letras do Damon Albarn com as digitais melódicas inconfundíveis da guitarra do Graham Coxon.

New World Towers –  logo depois da abertura do álbum já temos um “corte” e entra um som mais característico da carreira solo do Damon Albarn, algo ali na linha do trabalho paralelo com o The Good The Bad and The Queen, lento, semi-eletrônico, foi a segunda faixa que eu menos gostei até agora, parece um pouco deslocada do resto do babado.

Go Out – aqui voltando pra “essência-Blur” de novo, na sua face mais suja e experimental, lembrando ali coisinhas do álbum Blur de 1997, belezura.

Ice Cream Man – essa é outra que bebe num arranjo mais solo-damoniano, com firulinhas eletrônicas, violão arrastado, mas mais gostosinha que New World Towers, e buscando de leve o melhor ali do Blur do começo da carreira, com suas “canções-personagens”.

Thought I Was a Spaceman – aqui o álbum deixa de oscilar entra uma faixa mais Blur-essência, e outra mais Damon-solo e temos uma química própria, um mix ali no ponto certo, arranjo classudão, um clima progressivo, mas com simplicidade; Damon cai de cabeça na temática que permeia o álbum: solidão na multidão, melancolia na urbanidade.

I Broadcast – deve ser a música do disco mais “pré-moldada” no Blur “clássico”, e como não poderia deixar de ser frente a isso, grudentíssima.

My Terracotta Heart – segundo o Coxon, essa semi-balada toca de forma indireta, com todo o climão oriental, no que seria a razão de todo o trabalho, a reconciliação definitiva entre ele e o Damon, algo como uma Tender de acerto de contas, bela e singela.

There Are Too Many Of Us – essa divide o pódio do meu favoritismo com o petardo de abertura; assim como Thought I Was a Spaceman, liricamente poderosa, com uma melodia que deve estar entra uma das melhores coisas que a banda já produziu em toda a sua carreira, tudo encaixadinho, sem arestas; violentamente boa.

The Ghost Ship – aqui temos um “corte” de novo, e a sequência de canções equilibradas dá lugar ao que me disseram ser “uma musiquinha estilo Gorillaz“, o que convenhamos não é nenhuma ofensa, mas inevitavelmente desalinha a bagaça.

Pyongyang – uma música de clima diametralmente oposta a anterior, que recupera a densidade lírica e melódica do tracklist, é inevitável ao ouvi-la imaginar o Damon caminhando pelas ruas frias e cinzas da capital da Coréia do Norte; difícil comparar essa com qualquer outra do Blur, mas ela me lembra This is a Low, não sei por que.

Ong Ong – essa também parece que desalinha o andamento da carruagem, é a que eu menos gostei de todas, se fosse eu jogaria pra um b-side, sem pensar duas vezes.

Mirroball – bela canção, e bela escolha pra fechar o álbum, baladinha tristonha mas elegante.

Em suma, o que mais me deixou animado nesse trabalho foi como as variáveis e elementos se encaixaram no seu melhor estado, sem apelação e sem saudosismo. Menos megalomania criativa de um lado, mais flexibilidade melódica do outro, enquanto um terceiro deixou um pouco de lado a produção de queijos em sua fazenda, e um quarto a vida no escritório de advocacia. Para o bem do universo do rock e do pop, o caldo não entornou, e a receita do sorvetinho chinês ficou deliciosa.

Aqui embaixo, antes de ir, videozinho da violentamente boa.

cotação empty spaces: 10

OBS: “Bolacha na Vitrola” não é crítica de música especializada, as opiniões e cotações aqui expostas são mera e espontaneamente leigas e impulsivas.

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walking downtown

Eu já escrevi sobre isto antes aqui no blog, mais de uma vez provavelmente (preguiça de pesquisar). Gosto de expor publicamente meu gosto e veneração pelo walking downtown. Uma prática que está quase relegada ao ostracismo aqui no Brasil.

Observando parentes, amigos, conhecidos, é notável a preferência, a realidade, ou o desejo de morar em condomínios fechados ou em “complexos” de apartamentos em bairros distantes, ou quando não fora das zonas urbanas.

Gosto é gosto. Mas não precisa ser gênio pra perceber que há um elemento coercitivo social e ideológico nessa opção, e até um “maria-vai-com-as-outras”. E é escroto ver como o centro de uma cidade como Campinas nos finais de semana e feriados fica às moscas como esse movimento de encastelamento.

Prevalece a densidade populacional dos insetos, mas pelo menos existem bravos guerreiros, com quem você troca aquele cumprimento de identificação, como dois caubóis que se cruzam com sua boiada na velha e surrada estradinha de terra.

Já notei que houve um certo refluxo mercadológico nesta onda. Dando uma volta hoje identifiquei vários novos “espigões”, boa parte residenciais, que estão em fase final de construção. Aliás, foram levantados em “velocidade chinesa”. Resta saber se não vão virar muito em breve belos “esqueletos” desocupados da especulação imobiliária. O que em última análise não vai ser de todo ruim, the bubble is bursting.

Enfim, na torcida por paradigmas urbanos mais gostosos e agregadores. E você aí, sentadão no seu rochedo no alto da colina das “alfas e betas villes”, desce aqui, por que a química urbana autêntica está no paralelepípedo gasto, nas padocas com seus “pingados” violentos, e naquela esquina com muro pichado. Não adianta fingir (e fugir).

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