Empty Spaces Chronicles 2.0

Opinião e Sentimentos em pequenas cápsulas, vácuo adentro.

estabelecimento, cimento, e plasticidade

Estabelecer.

v.t.d. e v.bit. Colocar em vigor; fazer existir; instituir

v.t.d. e v.pron. Fazer com que (alguma coisa) fique estável; estabilizar-se

v.t.d. Designar a realização de alguma coisa; prescrever

v.pron. Firmar residência (habitação) em; morar – Possuir ou aceitar um plano de vida – Permanecer durante muito tempo; reinar

(fonte: http://www.dicio.com.br/)

Estava lendo um artigo sobre “plasticidade cerebral” que uma amiga colocou no Facebook e fiquei com essa palavrinha na cabeça, o estabelecimento. Lá no texto pesquisadores cravam, com uma precisão violenta: em 66 dias você pode “remoldar” seu cérebro, ele é plástico, ele pode ser o que sua energia determinar. Ele estabelece. Em qualquer idade, em qualquer tempo.

Você e-s-t-a-b-e-l-e-c-e, essa é a mensagem. Seus neurônios e-s-t-a-b-e-l-e-c-e-m sinapses. É uma palavra gostosinha porque você “coloca em vigor” ou “estabiliza” (algo que está teoricamente desequilibrado ou provisório). “Colocar em vigor” algo novo, ser “plástico”. “Fazer existir” e “estabilizar” a partir do seu livre-arbítrio.

A vida é um eterno estabelecimento do caos das energias que nos cercam. Nossa alma, nosso espírito, nossa consciência, nossa energia vital, como você preferir, é um estabelecimento. Não precisa ser filósofo pra concluir. Mas dentro desse processo, o que me chama a atenção e incomoda, como já comentei outras vezes aqui no blog (em outros contextos), é o como a nossa cultura (no sentido mais amplo possível) coloca “cimento” na “plasticidade”.

Cimentar

v.t. Ligar, guarnecer com cimento; acimentar.
Fig. Fortalecer, consolidar: cimentar a paz.

(fonte: http://www.dicio.com.br/)

Relembrando diálogos com queridos, chegados, intermediários, desconhecidos: “Isso não é do meu tempo”, “Cara, eu tô velho pra isso”, “Cadê meu cobertor e minhas séries?”, “Courtney Barnett, o que é isso?”, “Eu não tenho mais pique pra essas coisas”, “A cena acabou..”, “Eu perdi o timing..”, Eu joguei cimento na plasticidade.

Idiossincrasias miúdas são ótimos exemplos. Podemos simplificar para coisas ainda menores, ou amplificar para tomadas de decisões mais sérias e abrangentes.

Estabelecer de forma a não cimentar. Meio que sem querer querendo, este está se postando como uma lema existencial para mim. Por incômodo, por observar o quanto as pessoas mudam suas energias quase que inconscientemente (pra pior), mas principalmente como forma de manter a vontade no centro de tudo.

A auto-sabotagem do “cimento no plástico”. Difusa, dissimulada, manente. Difícil de localizar, mas que sempre exala pelos sifões do amadurecimento.

It’s not easy.

Plasticidade

n.f.
1. Característica de plástico;
2. Flexibilidade ou elasticidade;
3. Atributo ou propriedade que permite que determinados materiais sejam deformados de modo ininterrupto sem que ocorra qualquer rachadura ou rompimento.
(Etm. plástico + i + dade)

(fonte: http://www.lexico.pt/)

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gostosinhas na vitrola: “I Bet You Look Good On The Dancefloor” (Arctic Monkeys)

Lá se vão dez anos do lançamento de I Bet You Look Good On The Dancefloor. Na minha humilde opinião, a última vez que o rock britânico respirou a plenos pulmões. A última cena roqueira de respeito na terra da rainha. Em outubro de 2005 eu estava chegando em sampa city, indo morar sozinho pela primeira vez, em busca do primeiro emprego “ralado”. Tudo era novidade, era cheiro de novo, de desafio. Assim como Oasis marcou minha redenção nas tensões psicológicas da adolescência, Monkeys marcou o primeiro e genuíno mergulho no “mundo adulto” (apesar da contradição). Por isso eu rotularia essa música como “a música ideal para cair no mundão”. E claro, considero uma das melhores já escritas no departamento rock and roll ever. A letra, a melodia, a “pegada”, está tudo perfeito e no seu devido lugar, com manda o melhor da cartilha. A cara do Alex Turner neste clipe representa perfeitamente meu estado de espírito na época: susto e “chapação”. Não sem razão, é a medalha de prata nos charts do meu last.fm full time: 244 plays até a finalização deste post.

And we want more!

p.s.: quando a banda surgiu, eu demorei um pouco para realmente curtir o som deles (e depois viciei), mas essa música caiu como uma bigorna.

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telão com pipoca: rapidinhas (12)

O plano perfeito

O Plano Perfeito (Inside Man, 2006): Boa película de ação e suspense do diretor Spike Lee. O filme não deixa de ter uma certa “pegada” política, bem característica do diretor, mas sem aquela cara de manifesto ou coisa que o valha. Há um equilíbrio bem interessante entre suspense e humor (e a crítica social, política, of course), o que deixa o filme bem diferenciado, classudo, do começo ao fim. Sem falar no elenco de grosso calibre (#jodiefostercrushmodeon).

cotação empty spaces: 8,25

Beijei uma garota

Beijei uma Garota (Toute première fois, 2015): Comédias francesas, assim como mamilos, normalmente são polêmicas, ou agradam em cheio ou são escrotíssimas. Essa aqui tenta percorrer o caminho do meio, embora o caminho do meio não seja o forte dos franceses em termos cinematográficos. A tática foi temperar com condimentos das comédias de tradição yankee (como bem me lembraram na sessão de cinema, o final lembra um pouco Debi & Lóide). Eu gostei, na medida em que não busquei grandes expectativas. Se você é daqueles que sempre procura um “tchan” a mais nos filmes franceses, não vai gostar.

cotação empty spaces: 7,85

las insoladas (2)

Insolaradas (Insolaradas, 2014): Comédia do mesmo diretor de Medianeras. Na mesma toada, mas mais limitada. Eu já tinha achada o final do Medianeras bem anticlímax, aqui o final não destoa da linearidade do filme, mas ficou de novo aquela sensação de que podia ter sido melhor. Destaque pra fotografia (e as cores) do filme.

cotação empty spaces: 7,9

O homem irracional

O Homem Irracional (Irrational Man, 2015): Na mesma linha de Magia ao Luar, mas achei mais interessante esse último rebento do diretor Woody Allen, que deixa mais espaço pro suspense e pro humor negro. E também a atuação do Joaquin Phoenix como um filósofo pra lá de perturbado está mais interessante do que a do Colin Firth no trabalho anterior, o que obviamente não significa desmerecer a performance do ator inglês. Destaque pra trilha sonora a la Peanuts que dá um charme diferenciado ao suspense-cômico do enredo. Li muita gente reclamando que Woody Allen foi “preguiçoso” nesse filme. Bom, se ele está preguiçoso aqui, foi preguiçoso na esmagadora maioria dos filmes que vi dele. O homem trabalha dentro de um “quadrado”, mas é o “quadrado” do Woody Allen.

cotação empty spaces: 9,75

Crash

Crash: No Limite (Crash, 2004): Enrolei mais de uma década pra ver esse filme, mesmo com todas as credenciais apresentadas. Realmente não sei o porquê da demora, acho que foi preguiça mesmo. Mas enfim, é um ótimo filme. Eu não diria que é um trabalho que berra pra ser chamado de diferenciado, mas é muito bem executado. E o que eu mais gostei foi vivenciar a sensação de que de tempos em tempos o roteiro poderia puxar pro caminho do “clichê”, mas o diretor dá um jeito, corrige, e engata uma sequência que vai aos poucos ficando tensa e matadora. Very nice.

cotação empty spaces: 9,25

Desconstruindo Harry

Desconstruindo Harry (Deconstructing Harry, 1997): Mais um petardo do Woody Allen que eu saboreio, o primeiro do pré-anos 2000 (sim, eu sou um ignorante no old-classic Woody Allen). Eu acho que já comentei aqui no blog, mas lá vou eu de novo. Prefiro os filmes do consagrado diretor onde ele não dá as caras. Porém, uma coisa é inegável, os filmes em que ele atua são via de regra mais agudos no humor. Aqui então a coisa ficou bem azeitada, com o roteiro classudíssimo trabalhando em cima da tal “desconstrução” literária do protagonista. Poderíamos dizer que é um filme do Woody Allen “puro sangue”: ou o sujeito acha muito bom ou odeia. Eu estou no primeiro grupo. Pelo menos por enquanto.

cotação empty spaces: 9,80

Bladerunner

Bladerunner, o Caçador de Andróides (Blade Runner, 1982): Tive a oportunidade de rever essa belezura em tela grande, mais uma vez naquele esquema classudo de “sessões vintage” do Cinemark. E como em todas as vezes anteriores que revi, extraí mais alguma coisa interessante do filme, mais um detalhe. Se tivesse que escolher meu filme favorito entre os meus favoritos, provavelmente seria este. Ridley Scott é um grande diretor, mas com essa película ele conseguiu fazer algum acima da sua própria média, e nunca mais repetiu o êxito (gosto dos outros filmes dele, mas sempre num degrau abaixo). Eu não sei bem o que me atrai, o que me faz pensar nesse trabalho como uma obra-prima. O tema é dos meus favoritos, ficção científica. A forma como assuntos “cabeça” entram no roteiro, sem pretensão ou megalomania, e se encaixam perfeitamente numa espécie de conto policial-suspense-noir-distópico. O detalhismo e a elegância da fotografia, que trabalha em sincronia perfeita com a belíssima trilha sonora. O trabalho de direção extremamente equilibrado que deixa fluir o roteiro sem altos e baixos, numa constante que não te faz desligar do filme até a última cena. É muita coisa boa junta. E claro, não tem como dar outra nota aqui no nosso rating, é 10.

cotação empty spaces: 10

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